Candomblé e Umbanda: diferenças que merecem respeito

Por Aryanne Lima, Daniel Alves e Joafrânia Nogueira

O Brasil, apesar de ser considerado um país laico, preserva nos seus costumes alguns preconceitos para com as religiões afro-brasileiras.

Estão dentro da categoria afro-brasileiras todas as religiões originárias da África trazidas para o Brasil. São muitas: Quimbanda, Babaçuê, Batuque, Cabula, Xambá, Xangô do Nordeste, Umbanda, Candomblé, entre outras. De todas elas, o Candomblé e a Umbanda são as únicas praticadas em todo o Brasil. As outras são manifestadas apenas em determinados estados.

Constituído pela maioria católica, o povo brasileiro parece conservar certo ranço quando o assunto é diversidade religiosa. O problema com a intolerância vem de longe. Basta um olhar sobre a história das religiões brasileiras para percebermos a marginalização das que são minoria.

Trazidas pelos africanos, o Candomblé e a Umbanda logo foram reprimidas pelos missionários jesuítas que, na tentativa de catequizar os índios, foram logo tratando de abolir todas as outras práticas religiosas que ali pudessem se manifestar. Não lhes eram permitido prestar cultos aos deuses que não tivessem sido instituídos pela Igreja Católica.

Nesse sentido, os índios aprenderam desde cedo que as religiões africanas tinham pacto com o demônio. Que o correto seria seguir o cristianismo e os ensinamentos da bíblia. Quem agisse de forma contrária era considerado herege – pessoa ímpia. Foi sob essa educação religiosa que o Brasil foi formado.

Uma macumba só

É comum as religiões afro-brasileiras serem tratadas todas como “macumba”. O senso-comum reforça isso todos os dias. Talvez na tentativa de simplificar o conceito ou mesmo de não saber diferenciá-los, essas religiões ganham um sentido desagradável, sempre associado a práticas de desagrado, criando inclusive alguns termos pejorativos, como “chuta que é macumba”, “xô macumba”. A verdade é que há diferenças entre elas. É preciso desmistificá-las, fazê-las conhecidas.

Para o sociólogo Rosendo Amorim, a intolerância religiosa advém de um comportamento de ignorância com relação a outras religiões. “A raiz desse problema está em um tipo de postura que podemos chamar de etnocêntrica no sentido cultural-religiosa”, diz.

Amorim explica que esse posicionamento diz respeito a uma dificuldade que alguns indivíduos têm de sair do seu próprio mundo de valores e se colocar no lugar do outro no sentido de compreender o que há por trás das diferenças. Para ele, é importante reconhecermos que vivemos em uma sociedade multicultural cujo respeito deve ser a máxima para que possamos viver sem conflitos.

Apesar da confusão que se costuma fazer ao definir Candomblé e Umbanda como sendo macumba, os seguidores dessas religiões negam o uso da palavra para defini-las. Na idéia popular a palavra está ligada ao uso de feitiço, despacho, mandinga. As superstições são muitas. Daí o uso de adereços e objetos que lembram os utilizados em cultos religiosos.

Curiosidade: a palavra macumba, na verdade, em qualquer dicionário pesquisado, significa: antigo instrumento musical de percussão, espécie de reco-reco de origem africana que produz um som rascante. Dá-se o nome de macumbeiro o tocador desse instrumento.

Diferenças entre Candomblé e Umbanda

Candomblé

O Candomblé é considerada uma religião monoteísta, já que a palavra de Deus é utilizada nos rituais. Apesar de reconhecerem a existência dos Orixás, dos Voduns e dos Inkices, os praticantes não os reconhecem como deuses. Eles são considerados apenas figuras mitológicas.

O pai de santo Shel explica que o Candomblé é uma das religiões praticadas no Brasil e também em países como Uruguai, Argentina e Venezuela e outros. A religião foi desenvolvida no Brasil por meio dos sacerdotes africanos que foram escravizados e trazidos para cá, entre 1549 e 1888.

A religião valoriza a alma da natureza representada por seus elementos: rio, oceano, montanha, floresta, rocha, incluindo animais, fungos, vegetais e todos os fenômenos naturais, como chuva, vento, dia, noite. A importância dada a esses elementos naturais é um princípio vital para os praticantes e seguidores.

Somente na cidade de Salvador existem quase 3.000 terreiros registrados na Federação Baiana de Cultos Afro-brasileiros. A cartografia dos terreiros de Candomblé é do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Os rituais são geralmente realizados em templos denominados casas, roças ou terreiros que podem ter descendência matriarcal – quando apenas as mulheres assumem a liderança, patriarcal – quando somente os homens podem ser os líderes, ou mista – quando homens e mulheres podem liderar o terreiro.

As celebrações são conduzidas por um pai-de-santo ou mãe-de-santo. Sempre em ritmo de dança o tambor é embalado e os filhos-de-santo iniciam suas súplicas aos orixás para que os incorpore. A duração do ritual é de no mínimo duas horas.

Diferentemente da Umbanda, no Candomblé não há incorporação de espíritos, já que os orixás invocados são divindades da natureza. Na Umbanda, as incorporações são feitas por meio de espíritos encarnados ou desencarnados em médiuns.

Umbanda

Nascida a partir da mistura entre crenças e ritos europeus e africanos, a Umbanda nasceu no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, nos anos 20. A religião acredita e prega que o universo está povoado de espíritos, chamados pelos praticantes de guias que entram em contato com as pessoas por intermédio de um médium, capaz de incorporá-los.

Esses guias se manifestam por meio de representantes espirituais, que são o caboclo, o preto-velho e a pomba-gíria para darem conselhos e realizam curas. Alguns elementos africanos acabam se misturando ao catolicismo, criando assim uma identificação dos orixás com os santos católicos.

Outra influência da Umbanda é o espiritismo Kardecista, cuja crença está firmada napossibilidade de comunicação entre vivos e mortos. É clara a aproximação entre as religiões indígenas, cristianismo, espiritismo e afro-brasileiras.

Os fundamentos da Umbanda se baseiam na existência de um Deus único, na existência de Jesus, na existência de planos espirituais, na possibilidade de encarnação de espíritos, na reencarnação e na lei Kármica de causa e efeito. Seus praticantes pregam a caridade, a esperança e o amor ao próximo.

Preconceito religioso é crime

A tolerância pode ser definida como a linguagem da igualdade e o respeito ao outro com todas as suas diferenças. O que muitos desconhecem é que a intolerância religiosa no Brasil é crime. A Constituição brasileira garante a liberdade de cada indivíduo escolher e seguir a religião que quiser.

O Art. 208 do Código Penal afirma ser crime “contra o sentimento religioso”, “escarnecer de alguém, publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

De acordo com o defensor público Luis Fernando de Castro, “a intolerância religiosa é invisível no cotidiano, embora se traduza em problemas como a humilhação de quem segue religiões com matriz africana (como umbanda ou candomblé)”. Castro comenta que já acompanhou um caso de apedrejamento no Rio de Janeiro e outro de espancamento de uma criança por conta de preconceito religioso.

As penas para quem comete esse tipo de crime são de reclusão de dois a cinco anos para os casos de impedimento de acesso de alguém, devidamente habilitado, a qualquer cargo público ou privado, bem como ascensão funcional, e reclusão de um a três anos, para casos de recusa ou impedimento de acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador.

Para casos de recusa, negação ou impedimento a inscrição ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau, bem como impedimento a acesso ou recusa a hospedagem em hotel, pensão, estalagem, ou qualquer estabelecimento similar, a pena é de três a cinco anos.

Agora, antes de zombar de alguém pelo fato de ela seguir e praticar determinadas religiões,é preciso pensar duas vezes. O respeito, nesse caso, não é apenas uma questão de cordialidade. É um dever constituído.

Para saber mais sobre essas religiões, confira o vídeo abaixo:

Para conhecer alguns lugares de encontro das pessoas dessas religiões  ou locais onde podem ser encontrados artigos religiosos para realizar alguns rituais, localize no mapa a seguir:

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s