O fenômeno Bullying:da ficção dos jogos à realidade das escolas

Por Renan Silva

O jogo reproduz situações de bulling

Jimmy está deitado no carro, discutindo com sua mãe e seu padrasto. A mãe do garoto resolve interná-lo na Bullworth Academy, uma escola norte-americana. Jimmy é um rapaz muito mau, o pior que a escola já recebeu. Em outros internatos, Jimmy já praticou vandalismo, linguagem imprópria e Bullying.

Parece um fato da vida real, mas não é. Jimmy, na verdade, é o personagem principal do game Bully, lançado pela Rockstar Vancouver para o Playstation 2, em outubro de 2006. Bullying é um termo em inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos.

No Brasil, o jogo foi banido em abril de 2008, com base em um estudo psicológico feito pelo Estatuto da Psicologia, que afirma que o jogo pode ser potencialmente prejudicial para adolescentes e adultos. Já nos Estados Unidos, o jogo foi liberado pela Justiça americana para ser comercializado no Estado da Flórida.

Não é de hoje que existem jogos com temáticas violentas, mas Bully é um dos que tem gerado maior controvérsia, principalmente pela forma como apresenta a temática do bullying. No game, a facção dos bullies, formada pelos valentões da escola, adora agredir crianças, meninas e, principalmente, nerds. Para isso, usam golpes simples, como chutes, socos e empurrões, como forma de demonstrarem a sua superioridade aos demais.

A idéia da Rockstar foi aproximar a experiência do jogo da experiência real. “A escola pode ser dura às vezes, nem sempre se trata de notas A”, disse Rodney Walker, porta-voz da Rockstar Games, em entrevista ao jornal USA Today.

A evolução dos games

Os avanços tecnológicos estão possibilitando que os programadores de jogos consigam mesclar a ficção com a realidade, por meio de ferramentas avançadas e formas tridimensionais. O formato dos jogos tende a ficar cada vez melhor e a percepção dos usuários de games sobre eles será semelhante a de um filme, em que as cenas e a vivência dos personagens navegarão entre o fictício e o real.

Juntamente com essa evolução, também houve a proliferação de jogos com temática violenta, como o Bully. Apesar disso, segundo Luiz Adolfo de Andrade, doutorando em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia, não é possível afirmar que o formato do jogo seja um dos responsáveis pelo aumento dos casos de bullying. “Acho que a fonte do problema está na base familiar (filhos que acompanham pais brigando), descaso na educação dos filhos. O bullying está presente nos games da mesma forma que nos filmes, em letras de música, séries de TV etc.”

Para Luiz Adolfo, caracterizar a violência nos games como uma questão social não é a melhor solução: “Não podemos culpar um formato expressivo pelo aumento de um problema social. Acho que devemos evitar excessos.”

Alerta aos usuários

Umas das preocupações dos sociólogos em relação a esse assunto é tentar comprovar que os jogos influenciam na educação e no comportamento infanto-juvenil. Segundo o Doutor em Sociologia Valmor Bolan, as crianças e os jovens usuários de games supostamente dão asas a desejos, geralmente relacionados à transgressão e à crueldade, que não podem se manifestar no mundo real.

Sobre esse assunto, Valmor Bolan faz um alerta aos pais: “Devemos ter um discernimento que permita fazer prevalecer uma ética da vida, que seja capaz de erradicar o joio da violência e desabrochar o respeito à vida humana em todos os aspectos”.

O assédio moral na TV e nas redes sociais

O seriado Glee é um exemplo de situações exageradas de bulling

Dizer que a televisão ressalta estereótipos não é exagero. Basta observar, por exemplo, a forma como os seriados norte-americanos “Os Simpsons” e “Glee” apresentam algumas de suas personagens. Geralmente, são caracterizadas como nerds ou patricinhas e, por isso,  humilhadas, maltratadas e expostas a diversos tipos de situações embaraçosas.

No Brasil, esse “fenômeno da ridiculazação” está presente, principalmente, nos programas humorísticos. Os alvos, podem ser famosos ou anônimos, como faz o programa “Pânico na TV”. E o que dizer das tradicionais pegadinhas, que ficaram famosas no “Programa Sérgio Malandro” e no “Programa João Kléber”?

Casos de bullying em programas de TV são mais comuns do que se imagina, o que muda é a forma como o tema é abordado. A professora de Psicologia da Unifor, Letícia Bessa, acredita que é importante a apresentação de casos de bullying na TV, mas alerta que há um comodismo amparado numa visão naturalista (que acredita que isso é normal e que, por exemplo, faz parte do tornar-se adulto nos casos vividos por adolescentes).

Outra maneira de praticar o bullying é pelas redes sociais. O cyberbullying é praticado quase sempre por jovens e adolescentes que se escondem por meio de identidades falsas. A perseguição é feita com a utilização de celular, dos sites de relacionamento e dos sites de vídeos. No Brasil, ainda não há uma lei específica para punir o cyberbullying.

Sobre o bullying nas redes socias, a psicóloga Letícia Bessa esclarece que são vários os fatores que podem ocasionar essa prática: “As pessoas não são apenas receptoras de influências externas, mas dialogam com essas vozes sociais, apropriando-se das mensagens ouvidas e construindo sentidos particulares.”

É possível identificar os autores através de rastreamentos realizados por profissionais capacitados. É importante que as vítmimas procurem as Delegacias Especializadas em Crimes Cibernéticos. As denúncias de cyberbullying também podem ser feitas através da SaferNet Brasil, associação que é referência no combate aos crimes pela internet.

Brincadeiras de criança são coisa do passado

Os jogos de rua estão se acabando

As tradicionais “brincadeiras de criança” fizeram parte de muitas gerações que hoje se lembram com saudade daquele época. As fantasias criadas pela imaginação fértil dos pequeninos dependiam apenas de sua criatividade de produzir o seu mundo particular.

Os adultos, principalmente os que passaram a sua infância no interior, sabem de cor uma dezena de brincadeiras que, infelizmente, muitas crianças hoje desconhecem. Um passado marcante, que ficou na memória de muitas pessoas.

José Batista de Lima, professor de Semiótica do Curso de Comunicação Social da Unifor, conta que, durante a sua infância, marcada pelo ambiente sertanejo, as brincadeiras eram mais ingênuas. Segundo ele, não só as crianças respeitavam os mais velhos, mas principalmente os mais velhos respeitavam as crianças.

Com a presença cada vez maior da mídia eletrônica e dos meios digitais na vida do homem do campo, a infância sertaneja se modificou. A vida ao ar livre deu lugar a realidade on line. Agora, as pessoas se aproximam à distância. O que era brincadeira, hoje não é mais.

Agora, o mundo das crianças não é mais tão particular. Cada vez mais precoces, elas aprendem na escola muito mais do que ler e escrever. Batista de Lima acredita que a infância de hoje pertence à escola, e não mais aos pais: “Antes os pais criavam os filhos, conviviam com eles. Agora pai e mãe estão no trabalho e o filho na escola. A casa está fechada e o fogo está apagado. Simbolicamente uma casa sem fogo não é lar. Lar vem de lareira, fogo. Na minha infância, ficávamos em torno do fogo do afeto e do fogão digerindo tapiocas, conselhos e cafunés. Escola não dá cafuné nem balança rede.”

Combate ao bullying nas escolas

Solange Teles é especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa

Na opinião da Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa, Solange Teles, campanhas de conscientização devem ser realizadas dentro das escolas.

RENAN – Como combater o bullying nas escolas?

SOLANGE TELES – Para evitar o bullying, deve ser feita uma campanha de conscientização nas
escolas para que os alunos possam perceber o grau de gravidade que isso pode
ocasionar para o aluno que sofre o bullyng, assim como o(s) colega(s) que
desencadeiam esse tipo de agressão.

RENAN– De que forma a participação dos pais na vida escolar dos filhos pode ajudar

no combate a essa prática?

SOLANGE TELES – A presença dos pais é sempre muito importante na vida escolar dos filhos, pois são eles que devem ser os primeiros a perceber a possível mudança no
comportamento do filho e informar a escola o que pode estar acontecendo
intramuros.

RENAN – Quais atitudes preventivas devem ser tomadas pelos professores?

SOLANGE TELES – O professor deve utilizar de vídeos, músicas e elaborar trabalhos com aspecto social em equipe para desenvolver uma atitude ética e humana e proporcionar um
clima de amizade.

RENAN– E quando o Bullying parte da própria instituição de ensino, o que se deve
fazer?

SOLANGE TELES – Denunciar, para que atitudes desse tipo não seja padrão.

RENAN– É importante que a escola preserve a identidade do aluno vítima de bullying?

SOLANGE TELES – É importante preservar para que não ressalte o(s) ponto(s) que serviram para o bullying, evitando, assim, a super-exposição, ou então potencializar a baixa autoestima.

RENAN – Como os psicólogos realizam o trabalho de acompanhamento das vítimas do
Bullying dentro das escolas?

SOLANGE TELES –  Infelizmente, as escolas públicas não dispõem desse serviço. Se houvesse um serviço de acompanhamento aos alunos, teriam ações de prevenção ao bullying e conscientização do mal que pode causar à pessoa por um tempo longo na vida, ou, às vezes, não consegue superar.

Saiba Mais

Caracterização do bullying: o termo é qualificado como um tipo de assédio moral praticado por alguém que se coloca em condições de exercer o poder sobre pessoa/grupo que julga ser mais fraco. Geralmente os praticantes do bullying apresentam um comportamento agressivo e negativo.

Tipos de bullying: existe o bullying direto, a forma mais praticada entre os agressores (bullies) do sexo masculino, e o bullying indireto, mais comum entre bullies do sexo feminino. Ambos são caracterizados por forçar a vítima ao isolamento social. Algumas técnicas são bastante usadas no bullying, entre elas:

– espalhar comentários
– recusa em se socializar com a vítima
– intimidar outras pessoas que desejam se socializar com a vítima
– criticar o modo de vestir ou outros aspectos sociais (etnia, religião etc).

Confira vídeo sobre o tema:

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