Gentileza em meio à guerra urbana

Por Lívia Lopes e Juliana Lima

Projeto incentiva gentileza no bairro

Quem pensa que o bairro Bom Jardim é lugar somente de violência e pobreza, precisa conhecê-lo melhor para perceber que, apesar dos problemas – atualmente, comuns a todos os bairros de Fortaleza – o local reúne pessoas preocupadas com o próximo e comprometidas com a propagação de relacionamentos baseados na gentileza.

O Movimento de Saúde Mental Comunitário do Bom Jardim (MSMCBJ) existe há mais de 10 anos e, atualmente, possui 12 projetos, que visam acolher e aceitar pessoas independente de suas condições sociais, raça, religião, sexo ou idade, estimulando a qualidade das relações pessoais, comunitárias, sociais e ecológicas.

–  “Entrem, fiquem à vontade! Já almoçaram? Tem suco, também.” O carinho e a gentileza no trabalho do Movimento do Bom Jardim já começa na porta. Lá, o acolhimento é uma das palavras chaves. “Tratamos todos iguais, independente de raça, crença ou problema, afirma padre Rino Bonvini, responsável pelo local.

Cante, Dance e Pinte o 7; veja o projeto em imagens

Adotado por uma tribo indígena norte americana, cujo tema é “Somos todos parentes”, Rino é um dos idealizadores do MSMCBJ, envolvido com projetos já há 15 anos. Além disso, é psiquiatra e professor de medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Em meio aos bichos, ele não esconde seu amor por eles, e fala da importância da interação entre ambos para o desenvolvimento e cura da mente: “Acreditamos que tudo é energia. Por isso, os nossos alunos interagem com os animais,” explica.

Segundo ele, um dos motivos do aumento das patologias é porque a vida moderna afasta o ser humano da natureza, do simples, por isso, estar próximo do natural se torna recurso importante para a saúde mental. Rino trabalha com adultos, mas, no projeto, atende pessoas de todas as idades, cujos problemas vão desde sociais, até pessoas que sofrem e esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Ainda de acordo com ele, no início, só eram atendidas pessoas carentes, mas devido à qualidade e o reconhecimento da Instituição, pessoas de classes mais favorecidas têm chegado ao local em busca de ajuda.

Como médico, como humano, Padre Rino cita a acolhida e a escuta como atitudes fundamentais para ajudar as pessoas que chegam ali: “A partir do momento que você acolhe com amor, com alegria, você dá oportunidade da pessoa de se sentir parte da família”,  finaliza.

Cantando, dançando e pintando o 7 para se ter gentileza

Em 2009, o Movimento de Saúde Mental Comunitária ganhou o prêmio “Gentileza Urbana” com o projeto “Cante, Dance e Pinte o 7”  – que é concedido pelo  Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) –  e reconhece ações de moradores da cidade, instituições sociais e empresas que contribuem para a melhoria da qualidade de vida em nosso Estado.

Praças, jardins, passeios, residências, espaços públicos cuidados pela população, parques, enfim, tudo aquilo que for bom e estimular a harmonia entre o meio ambiente e o homem pode acabar se convertendo em uma verdadeira gentileza para a metrópole.

Outro membro importante do MSMCBJ é Reni Araújo Dino, administrador financeiro, facilitador de mudanças e técnico de desenvolvimento humano e de potenciais. Reni foi um dos principais idealizadores do projeto que ganhou o prêmio de Gentileza Urbana de 2009, chamado “Cante, dance e pinte o 7”,  que teve início em 2004.

Idealizadores acolhem alunos e trabalham em meio aos animais

Rino explica que nos início dos anos 80, o movimento de pixação das paredes e muros era muito mais forte. Hoje, segundo ele, isso tem sido transformado em arte. A idéia do “Pinte o 7” é possibilitar jovens a entrar e fazer parte de uma forma de expressão, que é pintar os muros. “O bacana é que essa arte é aliada com o processo de conscientização e gentileza que embeleza o bairro”, diz.

O projeto acontece todos os anos, na semana da pátria. Além disso, o Movimento realiza encontros em escolas, praças e também faz concursos. Tudo para proclamar a vida e a paz com arte educação, movimento e cidadania. Segundo Rino, o “Cante, Dance e Pinte o 7”, aliado a outros projetos, chega a atender cerca de 500 jovens, em diversas atividades que envolvem – além da pintura – a música e o teatro. “Em todo o bairro Bom Jardim há cores e vida, por conta do Pinte o 7.”

No ano passado, na cerimônia de entrega do Prêmio Gentileza Urbana, Rani foi o responsável por representar todos os alunos, professores e envolvidos nas atividades da Instituição. Para ele, receber o prêmio foi uma grande emoção e uma resposta clara de que o trabalho estava dando frutos.

Ele conta que três dias antes de receber o Prêmio, os jornais publicaram matérias que mostravam o Bom Jardim como o lugar mais perigoso de Fortaleza. “A impressa mostrou o bairro como algo que só gerava morte. Estava lá: “Guerra Urnaba”. Mas eles esqueceram que daqui, todos os dias, saem milhares de pessoas que ajudam Fortaleza a crescer de diversas formas,” avalia.

Construir um mundo gentil é função de todos

O  Movimento de Saúde Mental Comunitário do Bom Jardim tem crescido tanto, que alguns dos facilitadores foram convidados para implantar projetos em outros países. “Nosso objetivo é sermos úteis. Contribuir e construir um mundo gentil é função nossa.”

“Não chamamos isso de trabalho, mas, sim, missão. Estamos ligados à fé, mas não ficamos só vendo os anjinhos no céu, nós agimos. É preciso mostrar a esse povo que uma vida feliz é possível e que atitudes gentis transformam,” conclui Rino.

Prêmio Gentileza Urbana em Fortaleza

Realizado desde 2005, o Prêmio vem ganhando gradativamente a atenção dos cidadãos fortalezenses que se interessam por questões da cidade. Clélia Leite, que faz parte do Instituto de Arquitetos do Brasil – CE (IAB), é uma das arquitetas responsável pelo prêmio. Ela cita o caso interessante da Praça Martins Dourado, no Papicu, que foi a vencedora do primeiro Prêmio em 2005.

Depois dessa praça ter ganho o Prêmio, outras associações já foram criadas para cuidar de outras praças: a Amoramigo adotou a Praça Arquiteto Rogério Fróes, no bairro Dionísio Torres,e foi premiada com menção honrosa em 2009; A Unilago, que cuida de um largo na Cidade dos Funcionários, foi também agraciada com menção honrosa em 2006. Provando que gentileza, de fato, gera gentileza.

A cada Prêmio são selecionadas 05 agraciadas dentre as muitas indicações recebidas. Uma única gentileza é escolhida vencedora entre as cinco. As outras quatro recebem um certificado de menção honrosa. Portanto, desde 2005, já foram 05 vencedoras e 21 menções honrosas.

Atitudes gentis que foram reconhecidas

Praça no Papicu e Projeto Colcha de Mosaicos, também vencedores do Prêmio Gentileza

O Movimento do Bom Jardim não é o único preocupado com a gentileza em Fortaleza. Em 2007, o muro grafitado com as mensagens filosóficas do sapateiro que fica na Avenida Washington Soares, foi uma das menções honrosas. Em 2006, foi a vez do canteiro central de uma Alameda no bairro Vicente Pinzón. Já em 2008, um projeto no Bairro Elery venceu, com a construção de um muro ladrilhado que contava através das imagens a história do bairro.

Clélia acredita que a sociedade precisa, primeiro, querer colaborar. “Não podemos ficar alheios aos acontecimentos e esperar que as ações sejam somente obrigações das instituições públicas,” afirma a arquiteta. Ela também diz que a falta de uma política urbana tem contribuído para ocupações ilegais e desorganizadas dos espaços de Fortaleza.

Ela cita que existem percursos nas ruas e praças com ausência total de calçadas, ora com pavimentação intransitáveis.  Ainda segundo arquiteta, o pedestre tem caminhado entre carros, sobre o lixo e sob o sol.

A  arborização está cada vez mais escassa e, além disso, tem sido excessiva a quantidade de letreiros de propagandas dos estabelecimentos de serviços e comércios.

“Temos obtido algumas respostas de cidadãos com suas indicações ou ações de gentilezas, apoio e divulgações de instituições públicas e privadas, alguns patrocínios de outras, mas a grande maioria continua com os ouvidos surdos. Isso precisa mudar, para que a gentileza seja gerada,” finaliza.

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